Carta Aberta - O lado oculto da medicina na era COVID19 - Relembrando a Transplantação

Nunca nos tempos modernos a medicina atravessou uma época como esta. A emergência de uma infeção por um vírus, outrora classificado como pertencente a uma família "pouco importante", invadiu as nossas vidas ao minuto.
Desde dezembro de 2019, que a descrição de uma epidemia na província chinesa de Hubei, com epicentro na Cidade de Wuhan, tem sido noticiada na comunicação social, mas pouco valorizada por todos os nossos dirigentes políticos e responsáveis da saúde mundiais, até surgirem os primeiros casos na Europa. A China foi origem de outras epidemias e atravessou vários momentos difíceis nestes contextos e nunca tomaram medidas tão restritivas no passado.
É, portanto, importante refletir, sem ter as pressões da comunicação social, dos números, das sondagens, dos eleitores e sobretudo da economia.
Nenhum serviço de saúde está preparado para uma situação destas e por isso é importante tomar medidas precoces e infelizmente aprender com os países que sofreram primeiro as consequências desta pandemia.
Todas as descrições na comunicação social e os dados publicados na literatura científica referem-se aos efeitos diretos do vírus, tratamentos mais ou menos eficazes, medidas tomadas ou a tomar em diversas situações e procedimentos preventivos.
No contexto atual é difícil avaliar os danos colaterais nos doentes que têm a infelicidade de ser acometidos por eventos de saúde agudos ou portadores de doenças crónicas. Neste último caso refiro-me especificamente aos doentes transplantados ou à espera de transplante.
Portugal possui Unidades de referência de excelência e pauta-se por estar na linha da frente na doação e na transplantação.
Tendo este dado em mente, é importante que os hospitais, mesmo que de primeira linha no combate à infeção por coronavírus e que integram Unidades de Transplantação, sejam capazes de se organizar para manterem níveis de assistência a este grupo de doentes de risco acrescido devido à terapêutica imunossupressora.
Existem algumas medidas que a Sociedade Portuguesa de Transplantação advoga seguindo orientações das Sociedades Internacionais e que devem ser implementadas de modo a reduzir os riscos de infeção e com o objetivo de manter a assistência a estes doentes:
- Organizar as consultas de seguimento em doentes estáveis, privilegiando o atendimento não presencial e com contacto telefónico;
- Estabelecer circuitos hospitalares alternativos aos circuitos de doentes COVID, para doentes transplantados com intercorrências agudas e que necessitem de avaliação presencial;
- Programar as colheitas de análises em locais dedicados a nível hospitalar ou através de protocolos com laboratórios periféricos e próximos das áreas de residência;
- Programar o fornecimento de medicação hospitalar em horários restritos ou por marcação direta com os serviços farmacêuticos ou mesmo através de entrega ao domicílio e alargando os intervalos de entrega;
- Manter asseguradas, nos internamentos destes doentes, as coberturas médicas e cirúrgicas para as intercorrências agudas e para os transplantes urgentes que neste período possam vir a ocorrer.
As administrações hospitalares devem, com as chefias intermédias e médicos diretamente implicados na assistência, que melhor do que ninguém conhecem as especificidades destes doentes e que já têm todos os mecanismos multidisciplinares articulados, instituir estes procedimentos. As alterações devem ser transmitidas aos doentes de forma clara para que não se gerem mal-entendidos. Parece-nos primordial que todos os circuitos alternativos estejam sinalizados e funcionais e para que não haja falhas nos procedimentos que naturalmente conduzirão a sentimentos de insegurança e que são na maioria das vezes, geradores de confusão que em nada ajudam os doentes, o bom funcionamento dos serviços e consequentemente das instituições.
No balanço que obrigatoriamente faremos, passado esta época, iremos com certeza ter a noção de que a transferência das atenções para os doentes com infeção COVID19 (unidades de cuidados intensivos (UCI), incluídas), compreensível para assegurar a capacidade de resposta aos doentes já internados e para futuras necessidades (aprendendo com o panorama vividos em outros países), têm e terão como consequência, a diminuição de sinalização de potenciais dadores. Se, por um lado isto se percebe pelos motivos acima descritos e também por questões de controlo e transmissão de infeção, por outro, acarreta no imediato, que doentes à espera de transplante de órgãos vitais como fígado, coração e eventualmente pulmão, vejam negada essa oportunidade e venham a falecer. Na realidade, estes tipos de transplantes salvam a vida no imediato.
As diretivas internacionais baseadas nas experiências de epidemias prévias como a gripe A ou a gripe das aves, aconselham que o transplante considerado urgente deve manter-se, pesando o risco de vida do doente e avaliando caso a caso. Este também foi o entendimento do Instituto Português de Sangue e Transplantação e com o qual concordamos.
É importante ter presente que se morre por infeção a COVID19, mas, também se morre por falta de órgãos vitais.
Quando esta situação for ultrapassada, perceberemos o que neste momento se encontra oculto pela voracidade dos números diários dos doentes infetados ou de perdas de vida por infeção COVID19. Saberemos os números dos falecimentos, provavelmente subestimados, dos outros doentes que continuam a existir.
Sociedade Portuguesa de Transplantação
Lisboa, 15 de abril de 2020

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